QUATRO GATOS
Na minha infância lembro-me de quatro gatos. Nenhum deles era meu. Havia o Cavaquinho, o gato das vizinhas Botelhos, um gato preto muito velhinho com uma coleira vermelha. Lembro-me dele ao pé do aquecedor de petróleo. Havia o Piruças, um gato tigre cinzento, muito vivo, muito esperto, novo, acho que também tinha uma coleira vermelha. Entrava pela janela da cozinha, era do prédio ao lado. A criada medonha ficava furiosa porque tinha su- perstições. Acho que tinha medo de não se casar. Havia o gato do Sr. José, o merceeiro da rua. Era um gato amarelo gordo, pachorrento. Dormia as sestas ao Sol na saliência do muro da cascata do quintal do rés-do-chão. Teve a cauda doente, parecia uma salsicha fresca, mas foi tratado com amor, andou com a cauda entrapada. No 4.º andar havia o Camões, um gato preto zarolho, acho que era por ser zarolho que se chamava Camões. Tinha caído do 4.º andar, feriu-se nas cordas, nos arames, dos estendais da roupa e ficou sem um olho. Foi tratado no hospital da Escola de Medicina Veteriná- ria. A dona, a Menina Maria, dizia que o gato tinha sido mais bem tratado na Veterinária do que ela no hospital quando tinha sido operada ao estômago. As pessoas pobres eram muito mal tratadas nos hospitais antes do 25 de Abril. Tive a sorte de crescer no Pátio das Cantigas, na Aldeia da Roupa Branca. É por isso que sei tantas coisas.